Luto materno: a dor de perder um filho e 3 formas de apoio
Perder um filho quebra uma expectativa que a gente talvez nem soubesse que carregava, a de que os pais partem antes. Quando isso não acontece, a dor vem acompanhada de uma pergunta sem resposta: como seguir vivendo depois de uma perda assim?
Não existe uma fórmula para atravessar o luto materno. Mas existe cuidado, tempo e apoio, que fazem diferença em como essa dor é vivida.
O que é o luto materno
O luto pela perda de um filho costuma ser descrito, por quem passa por ele, como uma dor diferente de todas as outras. Um estudo brasileiro publicado na SciELO, que ouviu mães enlutadas, identificou elementos que aparecem com frequência nesse tipo de luto: a dor em si, a culpa, a sensação de ter perdido o sentido do mundo, e o desejo de manter viva a memória do filho.
Outro estudo brasileiro, também publicado na SciELO, reuniu relatos de mães enlutadas e descreveu sensações que muitas delas reconhecem, mas raramente ouvem nomeadas: a impressão de que o filho pode voltar a qualquer momento, a sensação de ter perdido uma parte de si mesma, e a dificuldade de separar a imagem que ficou do filho da sua presença real. Reconhecer essas sensações como parte do processo, e não como sinal de que algo está errado, já é um primeiro passo de acolhimento.
Os mesmos estudos chegam a uma conclusão importante: embora o luto mude de forma ao longo do tempo, a perda de um filho não é algo que se “supera” no sentido de terminar. Isso não é sinal de que algo está errado com a mãe. É a natureza dessa dor específica.
O luto materno não segue uma linha reta
Outra pesquisa brasileira, sobre mães que perderam filhos ainda crianças, mostrou que o luto pode continuar presente e intenso mesmo anos depois da perda, sem relação direta com o tempo que passou. O estudo também aponta que, em alguns casos, essa dor pode chegar a um nível de sofrimento psicológico grave.
Se, em algum momento, a dor parecer maior do que a pessoa consegue carregar sozinha, ou vierem pensamentos de que a vida não vale mais a pena, vale buscar apoio imediatamente. O CVV oferece escuta gratuita, sigilosa e por telefone, 24 horas por dia, pelo número 188.
Como quem está por perto pode ajudar
Muita gente evita tocar no assunto perto de uma mãe enlutada, por medo de machucar. Mas, para muitas mães, o silêncio das pessoas ao redor dói mais do que falar sobre o filho que partiu. Falar sobre ele, contar histórias, dizer o nome, é uma forma de mantê-lo presente.
Ao mesmo tempo, não é sobre insistir. É sobre estar disponível, sem cobrar uma reação específica, e deixar que a mãe escolha quando e como quer falar. Se você está tentando entender como apoiar alguém nesse momento, o nosso conteúdo sobre como ajudar uma pessoa que perdeu a mãe ou o pai reúne outras ideias práticas de apoio no luto, mesmo sendo sobre um tipo diferente de perda.
Casais e os outros filhos: cada pessoa vive esse luto de um jeito
Dentro da mesma família, a dor pode ser vivida de formas diferentes, o que às vezes gera desencontros. Um estudo brasileiro sobre pais que perderam filhos crianças aponta que mães e pais costumam elaborar essa perda de maneiras distintas, e que essas diferenças não significam que um dos dois sente menos. Uma pessoa pode precisar falar sobre o filho o tempo todo, enquanto a outra prefere se ocupar com tarefas do dia a dia. As duas formas são válidas, e reconhecer isso evita que o luto se torne também um motivo de distanciamento no casal.
Os outros filhos da família, quando existem, também vivem essa perda à sua maneira, e muitas vezes ficam em segundo plano diante da dor dos pais. Vale reservar um espaço, mesmo pequeno, para que eles também possam expressar o que sentem, na medida da idade e da compreensão de cada um.
O luto perinatal merece um espaço próprio
Quando a perda acontece ainda durante a gestação ou logo após o nascimento, o luto tem características próprias. Segundo a Febrasgo, esse tipo de perda costuma vir acompanhado de uma dor intensa, ligada à expectativa que já existia em torno daquele bebê, e o apoio da família nesse momento é essencial.
Se essa é a sua realidade, saiba que essa dor é real e válida, mesmo que o tempo de convivência tenha sido curto.
O que ajuda a atravessar essa dor
Um estudo da PUC-Rio sobre mães que perderam filhos adultos identificou três recursos que costumam ajudar no enfrentamento dessa perda:
- Rede de apoio: família e amigos presentes, sem pressa para que a dor “passe”.
- Religiosidade, quando já faz parte da vida da pessoa.
- Manter um vínculo contínuo com a memória do filho, em vez de tentar apagar as lembranças. Guardar objetos, falar sobre ele, celebrar datas importantes, tudo isso pode fazer parte desse processo.
Quando buscar apoio profissional
Não existe um momento certo para procurar ajuda profissional, mas alguns sinais merecem atenção: dificuldade de retomar a rotina, isolamento que só aumenta, ou uma dor que não parece encontrar nenhum espaço para respirar. Um psicólogo, ou um grupo de apoio para mães enlutadas, pode oferecer um espaço seguro para elaborar essa perda, no tempo de cada uma.
Um estudo sobre a experiência de psicoterapia com mães enlutadas descreve esse acompanhamento não como uma forma de resolver ou apagar o luto, mas como um espaço para ressignificar a relação com o filho que partiu, com a família e com a própria vida. Não é sobre esquecer, é sobre encontrar um jeito de seguir carregando essa história.
Uma dor que muda de forma, mas não tem prazo para acabar
O luto materno muda ao longo do tempo, mas não existe um prazo para essa dor desaparecer, e isso não é fracasso de ninguém. Cada mãe vive essa perda à sua maneira, e todas as formas são válidas.
Se a sua família ainda está cuidando das decisões práticas dessa despedida, saiba que vocês não precisam fazer isso sozinhos. Estamos aqui, quando for a hora.